Decreto Regulamentar n.º 45/97 de 17 de Novembro


Com a criação da Reserva Natural do Paul de Arzila pelo Decreto-Lei n.° 219/88, de 27 de Junho, pretendeu-se responder à necessidade sentida internacionalmente de impedir o progressivo desaparecimento de zonas húmidas, tidas como locais de particular relevo para a biodiversidade e para a conservação da avifauna migratória. salvaguardando um dos últimos pauis da região centro de Portugal.

A importância do paul de Arzila, localizado na margem esquerda do rio Mondego, incide principalmente a nível faunístico, com destaque para a presença da lontra e para a sua função de refúgio e de nidificação da avifauna, tanto residente como migratória.

Com a publicação do Decreto-Lei n.° 19/93, de 23 de Janeiro, que cria o novo quadro de classificação das áreas protegidas nacionais, impõe-se a reclassificação da Reserva Natural do Paul de Arzila, segundo os critérios aí estabelecidos.

Foram ouvidas as Câmaras Municipais de Coimbra de Condeixa-a-Nova e de Montemor-o-Velho.

Assim:

Ao abrigo do disposto nos artigos 13.° e 32.° do Decreto-Lei n.° 19/93, de 23 de Janeiro, e nos termos da alínea c) do artigo 199.° da Constituição, o Governo decreta o seguinte:

Artigo 1.º

Reclassificação

É reclassificada a Reserva Natural do Paul de Arzila, adiante denominada por Reserva Natural.

Artigo 2.º

Limites

1-Os limites da Reserva Natural são os fixados no texto e na carta simplificada que constituem os anexos I e II ao presente diploma, do qual fazem parte integrante.

2-As dúvidas eventualmente suscitadas são resolvidas pela consulta da carta, à escala de 1:25 000, arquivada para o efeito na sede da Reserva Natural.

Artigo 3.°

Objectivos específicos

Sem prejuízo do disposto no artigo 3.° do Decreto-Lei n.° 19/93, de 23 de Janeiro, são objectivos específicos da Reserva Natural:

a) Proteger e conservar o seu valor natural e científico;

b) Promover e divulga os seus valores naturais, estéticos e científicos;

c) Ordenar e disciplinar a sua visitação.

Artigo 4.°

Gestão

A Reserva Natural é ferida pelo Instituto da Conservação da Natureza, adiante designado por ICN.

Artigo 5.°

Órgãos

São órgãos da Reserva Natural:

a) A comissão directiva;

b) O conselho consultivo.

Artigo 6.°

Comissão directiva

1-A comissão directiva, composta por um presidente e dois vogais, é o furgão executivo da Reserva Natural.

2-O presidente da comissão directiva é nomeado por despacho do Ministro do Ambiente, sob proposta do presidente do ICN, de cujo presidente depende hierarquicamente.

3-Um dos vogais é nomeado pelo ICN e o outro pelas Câmaras Municipais de Coimbra, de Condeixa-a-Nova e de Montemor-o-Velho, as quais dispõem, para o efeito, de um prazo de 60 dias após a entrada em vigor do presente diploma.

4-Na falta de nomeação do vogal pelas Câmaras Municipais no prazo estipulado no número anterior, o mesmo é nomeado pelo membro do Governo responsável pela área do ordenamento do território e administração local.

5-O mandato dos titulares da comissão directiva é de três anos.

6-A comissão directiva reúne, ordinariamente, uma vez por mês e, extraordinariamente, sempre que convocada pelo presidente

7-O presidente tem voto de qualidade.

8-É aditado ao quadro de pessoal dirigente do ICN, constante do anexo ao Decreto-Lei n.° 193/93, de 24 de Maio, na redacção do Decreto-Lei n.° 169/96, de 18 de Setembro, um lugar de presidente da comissão directiva, equiparado a director de serviços, nos termos do n.° 1 do artigo 17.° do Decreto-Lei n.° 19/93, de 23 de Janeiro.

Artigo 7.°

Competências da comissão directiva

1-Compete à comissão directiva, em geral, a administração dos interesses específicos da Reserva Natural. executando as medidas contidas nos instrumentos de gestão e assegurando o cumprimento das normas legais e regulamentares em vigor.

2-Compete, em especial, ao presidente da comissão directiva:

a) Representar a Reserva Natural;

b) Dirigir os serviços e o pessoal com os quais a Reserva Natural seja dotada;

c) Submeter anualmente ao ICN um relatório sobre o estado da Reserva Natural;

d) Fiscalizar a conformidade do exercício de actividades na Reserva Natural com as normas do Decreto-Lei n.° 19/93, de 23 de Janeiro, do presente diploma e do plano de ordenamento e respectivo regulamento;

e) Cobrar as receitas e autorizar as despesas para que seja competente.

3-Compete, em especial, à comissão directiva:

a) Preparar e executar planos e programas anuais e plurianuais de gestão e investimento, submetendo-os previamente à apreciação do conselho consultivo;

b) Elaborar os relatórios anuais e plurianuais de actividades, bem como o relatório anual de contas de gerência, submetendo-os previamente à apreciação do conselho consultivo.

c) Decidir da elaboração periódica de relatórios científicos e culturais sobre o estado da Reserva Natural;

d) Autorizar actos ou actividades condicionados na Reserva Natural, tendo em atenção o plano de ordenamento e o regulamento superiormente aprovados;

e) Tomar as medidas administrativas de reposição previstas no Decreto-Lei n.º 19/93, de 23 de Janeiro;

f) Ordenar o embargo e a demolição das obras, bem como fazer cessar outras acções realizadas em violação ao disposto no presente diploma e legislação complementar.

4-Das deliberações da comissão directiva cabe recurso para o Ministro do Ambiente.

Artigo 8.º

Conselho consultivo

1-O conselho consultivo é um furgão de natureza consultiva, constituído pelo presidente da comissão directiva e por um representante de cada uma das seguintes entidades:

a) Departamento de Botânica da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra:

b) Departamento de Zoologia da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade de Coimbra;

c) Comissão de Coordenação da Região do Centro;

d) Delegação Regional da Indústria e Energia do Centro;

e) Direcção Regional de Agricultura da Beira Litoral;

f) Direcção Regional do Ambiente-Centro;

g) Câmara Municipal de Coimbra;

h) Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova;

i) Câmara Municipal de Montemor-o-Velho;

j) Junta de Freguesia de Anobra;

l) Junta de Freguesia de Arzila;

m) Junta de Freguesia de Pereira de Campo;

n) Associações de defesa do ambiente, de âmbito regional ou de âmbito nacional com intervenção na região.

2-Os representantes das entidades referidas no número anterior são nomeados por despacho do Ministro do Ambiente, sob proposta das entidades representadas.

3-O conselho consultivo reúne, ordinariamente, duas vezes por ano e extraordinariamente sempre que convocado pelo presidente, por sua iniciativa ou a solicitação de, pelo menos, dois terços dos seus membros.

Artigo 9.°

Competências do conselho consultivo

Compete ao conselho consultivo, em geral, a apreciação das actividades desenvolvidas na Reserva Natural e. em especial:

a) Eleger o respectivo presidente e aprovar o regulamento interno de funcionamento;

b) Apreciar as propostas de planos e os programas anuais e plurianuais de gestão e investimento;

c) Apreciar os relatórios anuais e plurianuais de actividades, bem como o relatório anual de contas de gerência;

d) Apreciar os relatórios científicos e culturais sobre o estado da Reserva Natural;

e) Dar parecer sobre qualquer assunto com interesse para a Reserva Natural.

Artigo 10.º

Interdições

Na área da Reserva Natural são interditos os seguintes actos e actividades:

a) A alteração do uso actual dos terrenos e das zonas húmidas;

b) A alteração à morfologia do solo ou do coberto vegetal pelo enxugo ou pela drenagem dos terrenos, pela alteração da rede de drenagem natural e da qualidade das águas superficiais e subterrâneas e pela destruição das compartimentações existentes de sebes vivas;

c) A alteração à morfologia do solo pela instalação ou ampliação de depósitos de ferro-velho, de sucata, de veículos, de areia ou de outros resíduos sólidos que causem impacte visual negativo ou poluam o solo, o ar ou a água, bem como pelo vazamento de lixos, detritos, entulhos ou sucatas, fora dos locais para tal destinados;

d) O lançamento de águas residuais industriais, de uso doméstico ou provenientes de cultura de arroz na água, no solo ou no subsolo, susceptíveis de causarem poluição;

e) A colheita, captura, abate ou detenção de exemplares de quaisquer espécies vegetais ou animais sujeitas a medidas de protecção, incluindo a destruição de ninhos e a apanha de ovos, a perturbação ou a destruição dos seus habitats, com excepção das acções levadas a efeito pela Reserva Natural e das acções de âmbito científico devidamente autorizadas pela mesma;

f) A introdução de espécies zoológicas e botânicas exóticas;

g) A prática de actividades desportivas susceptíveis de provocarem poluição, ruído, ou deteriorarem os factores naturais da área, incluindo o trânsito com veículo motorizados fora das estradas ou caminhos municipais;

h) O sobrevôo de aeronaves com motor abaixo de 1000 pés, salvo por razões de vigilância ou combate a incêndios, operações de salvamento e trabalhos científicos autorizados pela Reserva Natural;

i) A utilização de aparelhagem de amplificação sonora, excepto dentro dos limites urbanos;

j) A prática de campismo ou caravanismo;

l) A aplicação de produtos fitossanitários que não sejam homologados anualmente pelo Instituto de Protecção da Produção Agro-alimentar.

Artigo 11.º

Actos e actividades sujeitos a autorização

Sem prejuízo dos restantes condicionalismos legais, ficam sujeitos a autorização prévia da Reserva Natural os seguintes actos e actividades:

a) A realização de obras de construção civil, designadamente novos edifícios e reconstrução, ampliação ou demolição de edificações, exceptuando as obras de simples conservação, restauro, reparação ou limpeza;

b) A alteração do uso actual dos terrenos ou da morfologia do solo pela alteração de culturas ou pela afectação de novas áreas a actividades agro-silvo-pastoris e novos povoamentos florestais ou sua reconversão;

c) A alteração do uso actual dos terrenos pela realização de operações de loteamentos urbanos para uso industrial ou pela instalação de explorações ou estabelecimentos industriais;

d) A alteração à morfologia do solo pela abertura de poços, furos e captações;

e) A alteração à morfologia do solo por escavações ou aterros;

f) A abertura de novas estradas, caminhos ou acessos, bem como o alargamento ou qualquer modificação dos existentes e obras de manutenção e conservação que impliquem a destruição do coberto vegetal;

g) A instalação de infra-estruturas eléctricas e telefónicas, aéreas e subterrâneas, de telecomunicações, de transporte de gás natural, de saneamento básico e de aproveitamento de energias renováveis fora dos perímetros urbanos;

h) A realização de queimadas e fogos controlados e a prática de foguear, excepto nas áreas com infra-estruturas a isso destinadas ou para prevenção de fogos (contrafogos);

i) A recolha de amostras geológicas e de espécies zoológicas e botânicas sujeitas a medidas de protecção, que pela sua natureza não decorrem da normal actividade agrícola.

Artigo 12.°

Contra-ordenações

1-Constitui contra-ordenação a prática dos actos e actividades previstos no artigo 10.° ou, sem as autorizações necessárias, no artigo 11.°

2-A punição e o processamento das contra-ordenações previstas no número anterior são feitos de acordo com os artigos 22.° e seguintes do Decreto-Lei n.° 19/93, de 23 de Janeiro.

Artigo 13.°

Caça

A prática de actividades venatórias na Reserva Natural encontra-se regulamentada pela Portaria n.° 821/93, de 7 de Setembro.

Artigo 14.°

Fiscalização

As funções de fiscalização, para efeitos do disposto no presente diploma e legislação complementar aplicável na Reserva Natural, competem ao ICN, às autarquias locais e demais entidades competentes, nos termos da legislação em vigor.

Artigo 15.°

Plano de ordenamento e regulamento

1-A Reserva Natural é dotada de um plano de ordenamento e respectivo regulamento, nos termos do artigos 14.° e 15.° do Decreto-Lei n.° 19/93, de 23 de Janeiro, a elaborar no prazo máximo de três anos contados a partir da data da entrada em vigor do presente diploma.

2-Até à aprovação do plano de ordenamento referido no número anterior aplica-se o zonamento definido no n.° 3 do artigo 2.° do Decreto-Lei n.° 219/88, de 27 de Junho, incluindo as interdições no seu artigo 9.°, em tudo quanto não contrarie o disposto no presente diploma.

Artigo 16.°

Autorizações

1-Salvo disposição em contrário, as autorizações emitidas pela comissão directiva da Reserva Natural não dispensam outros pareceres, autorizações ou licenças que legalmente forem devidos.

2-Sob proposta fundamentada da comissão directiva, o presidente do ICN pode fazer depender de uma avaliação de impactes ambientais, nos termos do Decreto-Lei n.° 186/90, de 6 de Junho, e do Decreto Regulamentar n.° 38/90, de 27 de Novembro, a autorização para a prática dos actos e actividades referidos no artigo 11.°

3-Na falta de disposição especial aplicável, o prazo para a emissão das autorizações pela comissão directiva da Reserva Natural é de 60 dias.

4-As autorizações emitidas pela comissão directiva da Reserva Natural ao abrigo do presente diploma caducam decorridos dois anos sobre a data da sua emissão, salvo se nesse prazo as entidades competentes tiverem procedido ao respectivo licenciamento.

5-São nulas e de nenhum efeito as licenças municipais ou outras concedidas com violação do regime instituído neste diploma.

Artigo 17.°

Direito de preferência

1-O ICN goza do direito de preferência nas alienações, a título oneroso, de quaisquer bens imóveis que se situem em zonas de interesse patrimonial definidas pelo plano de ordenamento.

2-O direito de preferência referido no número anterior tem o conteúdo e o alcance previstos no artigo 28.° do Decreto-Lei n.° 794/76, de 5 de Novembro e regula-se pelas normas do Decreto n.° 862/76, de 22 de Dezembro.

3-Os transmitentes devem efectuar a comunicação a que se refere o n.° 3 do Decreto n.° 862/76, podendo o titular do direito exercê-lo a todo o tempo, nos termos previstos no mesmo diploma.

Artigo 18.°

Revogações

Nos termos do n.° 1 do artigo 32.° do Decreto-Lei n.° 19/93, de 23 de Janeiro, são revogados o Decreto-Lei n.° 219/88, de 27 de Junho, com excepção dos seus artigos 2.°, n.° 3, e 9.°, em tudo quanto não contrarie o disposto no presente diploma, e a Portaria n.º 521/88, de 3 de Agosto.

Artigo 19.°

Entrada em vigor

O presente diploma entra em vigor no dia imediato ao da sua publicação.


Presidência do Conselho de Ministros, 11 de Setembro de 1997.

António Manuel de Oliveira Guterres-António Luciano Pacheco de Sousa Franco-João Cardona Gomes Cravinho-Fernando Manuel Van-Zeller Gomes da Silva-Elisa Maria da Costa Guimarães Ferreira- Jorge Paulo Sacadura Almeida Coelho.

Promulgado em 24 de Outubro de 1997.

Publique-se.

O Presidente da República, JORGE SAMPAIO

Referendado em 30 de Outubro de 1997.

O Primeiro-Ministro, António Manuel de Oliveira Guterres.


ANEXO I

Limites da Reserva Natural

A norte, pela linha de caminho de ferro desde a Ponte da Remolha até à estrada que, à entrada de Pereira, segue para Montes de Cima; a oeste, desde a linha do caminho de ferro, a estrada que passa por Montes de Cima entronca com a «estrada nova» de Pereira, seguindo por esta até à «estrada velha» de Pereira, e daí até à linha de alta tensão; a sul, desde a linha de alta tensão até ao Casal Figueira, seguindo pelo caminho vicinal que passa até pelo Casal de São João e encontra a estrada municipal n.° 605; a leste, a estrada municipal n.° 605 desde o Casal de São João até Inculca, dirigindo-se para Lameira de Baixo, Lameira de Cima e Arzila (Rua do Brasil, serventia do Rebelo, estrada do campo), até encontrar a Ponte da Remolha, junto à linha de caminho de ferro.

ANEXO II


Atenção: A leitura deste texto não dispensa a consulta do original.