Decreto Regulamentar n. 46/97 de 17 de Novembro


A criação da Reserva Natural das Dunas de São Jacinto, pelo Decreto-Lei n. 41/79, de 6 de Março, pretendeu preservar este espaço litoral face à importância botânica do seu ecossistema dunar e à excelência de condições para a avifauna, nomeadamente aquática.

Efectivamente, o cordão dunar e a área florestada limítrofe funcionam como barreira ao avanço do mar, impedindo significativas alterações ao equilíbrio ecológico da ria de Aveiro e proporcionando características físicas e biológicas particulares para o refúgio de muitas espécies de aves migratórias, designadamente patos.

Com a publicação do Decreto-Lei n. 19/93, de 23 de Janeiro, que cria o novo quadro de classificação das áreas protegidas nacionais, impõe-se a reclassificação da Reserva Natural das Dunas de São Jacinto, segundo os critérios aí estabelecidos.

Foi ouvida a Câmara Municipal de Aveiro.

Assim:

Ao abrigo do disposto nos artigos 13. e 32. do Decreto-Lei n. 19/93, de 23 de Janeiro, e nos termos da alínea c) do artigo 199. da Constituição, o Governo decreta o seguinte:

Artigo 1.

Reclassificação

É reclassificada a Reserva Natural das Dunas de São Jacinto, adiante designada por Reserva Natural.

Artigo 2.

Limites

1-Os limites da Reserva Natural são os fixados no texto e na carta simplificada que constituem os anexos I e II ao presente diploma, do qual fazem parte integrante.

2-As dúvidas eventualmente suscitadas são resolvidas pela consulta da carta, à escala de 1:25 000, arquivada para o efeito na sede da Reserva Natural.

Artigo 3.

Objectivos específicos

Sem prejuízo do disposto no artigo 3. do Decreto-Lei n. 19/93, de 23 de Janeiro, são objectivos específicos da Reserva

Natural:

a) Proteger o ecossistema dunar e o património natural a ele associado, incluindo a sua flora e fauna;

b) Promover acções de sensibilização ambiental;

c) Promover e divulgar os seus valores naturais, estéticos e científicos.

Artigo 4.

Gestão

A Reserva Natural é gerida pelo Instituto da Conservação da Natureza, adiante designado por ICN.

Artigo 5.

Órgãos

São órgãos da Reserva Natural:

a) A comissão directiva;

b) O conselho consultivo.

Artigo 6.

Comissão directiva

1-A comissão directiva, composta por um presidente e dois vogais, é o órgão executivo da Reserva Natural.

2-O presidente da comissão directiva é nomeado por despacho do Ministro do Ambiente, sob proposta do presidente do ICN, de cujo presidente depende hierarquicamente.

3-Um dos vogais é nomeado pelo ICN e o outro pela Câmara Municipal de Aveiro, a qual dispõe, para o efeito, de um prazo de 60 dias após a entrada em vigor do presente diploma.

4-Na falta de nomeação do vogal pela Câmara Municipal no prazo estipulado no número anterior, o mesmo é nomeado pelo membro do Governo responsável pela área da administração local e ordenamento do território.

5-O mandato dos titulares da comissão directiva é de três anos.

6-A comissão directiva reúne, ordinariamente, uma vez por mês e, extraordinariamente, sempre que convocada pelo presidente.

7-O presidente tem voto de qualidade.

8-É aditado ao quadro de pessoal dirigente do ICN, constante do anexo ao Decreto-Lei n. 193/93, de 24 de Maio, na redacção do Decreto-Lei n. 169/96, de 18 de Setembro, um lugar de presidente da comissão directiva, equiparado a director de serviços, nos termos do n. 1 do artigo 17. do Decreto-Lei n. 19/93, de 23 de Janeiro.

Artigo 7.

Competências da comissão directiva

1-Compete à comissão directiva, em geral, a administração dos interesses específicos da Reserva Natural, executando as medidas contidas nos instrumentos de gestão e assegurando o cumprimento das normas legais e regulamentares em vigor.

2-Compete, em especial, ao presidente da comissão directiva:

a) Representar a Reserva Natural;

b) Dirigir os serviços e o pessoal com os quais a Reserva Natural seja dotada;

c) Submeter anualmente ao ICN um relatório sobre o estado da Reserva Natural;

d) Fiscalizar a conformidade do exercício de actividade na Reserva Natural com as normas do Decreto-Lei n. 19/93, de 23 de Janeiro, do presente diploma e do plano de ordenamento e respectivo regulamento;

e) Cobrar as receitas e autorizar as despesas para que seja competente.

3-Compete, em especial, à comissão directiva:

a) Preparar e executar planos e programas anuais e plurianuais de gestão e investimento, submetendo-os previamente à apreciação do conselho consultivo;

b) Elaborar os relatórios anuais e plurianuais de actividades, bem como o relatório anual de contas de gerência, submetendo-os previamente à apreciação do conselho consultivo;

c) Decidir da elaboração periódica de relatórios científicos e culturais sobre o estado da Reserva Natural;

d) Autorizar actos ou actividades condicionados na Reserva Natural, tendo em atenção o plano de ordenamento e o regulamento superiormente aprovados;

e) Tomar as medidas administrativas de reposição previstas no Decreto-Lei n. 19/93, de 23 de Janeiro;

f) Ordenar o embargo e a demolição das obras, bem como fazer cessar outras acções realizadas em violação ao disposto no presente diploma e legislação complementar.

4-Das deliberações da comissão directiva cabe recurso para o Ministro do Ambiente.

Artigo 8.

Conselho consultivo

1-O conselho consultivo é um órgão de natureza consultiva, constituído pelo presidente da comissão directiva e por um representante de cada uma das seguintes entidades:

a) Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro

b) Departamento de Geociências da Universidade de Aveiro;

c) Capitania do Porto de Aveiro;

d) Comissão de Coordenação da Região do Centro;

e) Região de Turismo da Rota da Luz;

f) Delegação Regional da Indústria e Energia do Centro;

g) Direcção Regional de Agricultura da Beira Litoral;

h) Direcção Regional de Educação do Centro;

i) Direcção Regional do Ambiente-Centro;

j) Junta Autónoma do Porto de Aveiro;

l) Câmara Municipal de Aveiro;

m) Junta de Freguesia de São Jacinto;

n) Área Militar de São Jacinto;

o) Associações de defesa do ambiente, de âmbito regional ou de âmbito nacional, com intervenção na região.

2-Os representantes das entidades referidas no número anterior são nomeados por despacho do Ministro do Ambiente, sob proposta das entidades representadas.

3-O conselho consultivo reúne, ordinariamente, duas vezes por ano e, extraordinariamente, sempre que convocado pelo presidente, por sua iniciativa ou a solicitação de, pelo menos, dois terços dos seus membros.

Artigo 9.

Competências do conselho consultivo

Compete ao conselho consultivo, em geral, a apreciação das actividades desenvolvidas na Reserva Natural e, em especial:

a) Eleger o respectivo presidente e aprovar o regulamento interno de funcionamento;

b) Apreciar as propostas de planos e os programas anuais e plurianuais de gestão e investimento;

c) Apreciar os relatórios anuais e plurianuais de actividades, bem como o relatório anual de contas de gerência;

d) Apreciar os relatórios científicos e culturais sobre o estado da Reserva Natural;

e) Dar parecer sobre qualquer assunto com interesse para a Reserva Natural.

Artigo 10.

Interdições

Na área da Reserva Natural são interditos os seguintes actos e actividades:

a) A alteração do uso actual dos terrenos ou da morfologia do solo, incluindo o enxugo ou a drenagem dos terrenos e a alteração da rede de drenagem natural, e da qualidade das águas superficiais e subterrâneas e respectivo caudal;

b) A alteração à morfologia do solo pela instalação ou ampliação de depósitos de ferro-velho, de sucata, de veículos, de areia ou de outros resíduos sólidos que causem impacte visual negativo ou poluam o solo, o ar ou a água, bem como pelo vazamento de lixos, detritos, entulhos ou sucatas, fora dos locais para tal destinados;

c) A alteração à morfologia do solo pela exploração mineira ou de materiais inertes;

d) A alteração à morfologia do solo, nomeadamente por escavações ou aterros;

e) O lançamento de águas residuais industriais ou de uso doméstico na água, no solo ou no subsolo, susceptíveis de causarem poluição;

f) A colheita, captura, abate ou detenção de exemplares de quaisquer espécies vegetais ou animais sujeitas a medidas de protecção, incluindo a destruição de ninhos e a apanha de ovos, a perturbação ou a destruição dos seus habitats, com excepção das acções levadas a efeito pela Reserva Natural e das acções de âmbito científico devidamente autorizadas pela mesma;

g) A introdução de espécies zoológicas e botânicas exóticas;

h) A prática de actividades desportivas fora das estradas, caminhos municipais, arrifes ou aceiros, susceptíveis de provocarem poluição ou ruído ou de deteriorarem os factores naturais da área, nomeadamente passeios e raids organizados de veículos todo o terreno, passeios e raids equestres e provas e passeios de bicicleta todo o terreno;

i) O sobrevoa de aeronaves com motor abaixo dos 1000 pés, salvo por razões de vigilância e combate a incêndios, operações de salvamento e trabalhos científicos autorizados pela Reserva Natural e ainda na área de servidão militar e aeronáutica do Aeródromo Municipal de Aveiro;

j) A realização de queimadas e prática de foguear durante a época oficial de incêndios, excepto nas áreas com infra-estruturas a isso destinadas ou para prevenção de fogos (contrafogos);

l) A prática de campismo ou caravanismo fora dos locais para tal destinados.

Artigo 11.

Actos e actividades sujeitos a autorização

Sem prejuízo dos restantes condicionalismos legais, ficam sujeitos a autorização prévia da Reserva Natural os seguintes actos e actividades:

a) A realização de obras de construção civil, designadamente novos edifícios e reconstrução, ampliação ou demolição de edificações, exceptuando as obras de simples conservação, restauro, reparação ou limpeza;

b) A alteração do uso actual dos terrenos ou da morfologia do solo por novos povoamentos florestais ou sua reconversão;

c) A alteração à morfologia do solo pela abertura de poços, furos e captações;

d) A alteração à morfologia do solo pela modificação do coberto vegetal através da realização de cortes rasos de povoamentos florestais, bem como pela redução do coberto arbóreo ou arbustivo e pelo corte individual de espécies arbóreas e arbustivas autóctones, exceptuando as situações de emergência, nomeadamente as decorrentes de combate a incêndios;

e) A abertura de novas estradas, caminhos ou acessos, bem como o alargamento ou qualquer modificação dos existentes, e obras de manutenção e conservação que impliquem a destruição do coberto vegetal;

f) A instalação de infra-estruturas eléctricas e telefónicas, aéreas e subterrâneas, de telecomunicações, de gás natural, de saneamento básico e de aproveitamento de energias renováveis fora dos perímetros urbanos;

g) A instalação, afixação, inscrição ou pintura mural de mensagens de publicidade ou propaganda, temporárias ou permanentes, de cariz comercial ou não, incluindo a colocação de meios amovíveis, fora do perímetro dos aglomerados urbanos, com excepção da sinalização específica da Reserva Natural ou da respectiva Câmara Municipal;

h) A recolha de amostras geológicos e de espécies zoológicas e botânicas sujeitas a medidas de protecção, que pela sua natureza não decorrem da normal actividade agrícola.

Artigo 12.

Contra-ordenações

1-Constitui contra-ordenação a prática dos actos e actividades previstos no artigo 10. ou, sem as autorizações necessárias, no artigo 11.

2-A punição e o processamento das contra-ordenações previstas no número anterior são feitos de acordo com os artigos 22. e seguintes do Decreto-Lei n. 19/93, de 23 de Janeiro.

Artigo 13.

Caça

A prática de actividades venatórias na Reserva Natural encontra-se regulamentada pela Portaria n. 836/93, de 8 de Setembro.

Artigo 14.

Fiscalização

As funções de fiscalização, para efeitos do disposto no presente diploma e legislação complementar aplicável na Reserva Natural, competem ao ICN, às autarquias locais e demais entidades competentes, nos termos da legislação em vigor.

Artigo 15.

Plano de ordenamento e regulamento

1-A Reserva Natural é dotada de um plano de ordenamento e respectivo regulamento, nos termos dos artigos 14. e 15. do Decreto-Lei n. 19/93, de 23 de Janeiro, a elaborar no prazo máximo de três anos contados a partir da data da entrada em vigor do presente diploma.

2-Até à vigência do plano de ordenamento referido no número anterior aplica-se o zonamento definido no artigo 3. do Decreto-Lei n. 41/79, de 6 de Março, incluindo as interdições previstas no seu artigo 5.

Artigo 16.

Autorizações

1- Salvo disposição em contrário, as autorizações emitidas pela comissão directiva da Reserva Natural não dispensam outros pareceres, autorizações ou licenças que legalmente forem devidos.

2-A Reserva Natural pode fazer depender de uma avaliação de impacte ambiental, como formalidade essencial, nos termos do Decreto-Lei n. 186/90, de 6 de Junho, e do Decreto Regulamentar n. 38/90, de 27 de Novembro, a autorização para os actos e actividades referidos no artigo 11.

3-Na falta de disposição especial aplicável, o prazo para a emissão das autorizações pela comissão directiva da Reserva Natural é de 60 dias.

4-As autorizações emitidas pela comissão directiva da Reserva Natural ao abrigo do presente diploma caducam decorridos dois anos sobre a data da sua emissão, salvo se nesse prazo as entidades competentes tiverem procedido ao respectivo licenciamento.

5-São nulas e de nenhum efeito as licenças municipais ou outras concedidas com violação do regime instituído neste diploma.

Artigo 17.

Direito de preferência

1-O ICN goza do direito de preferência nas alienações, a título oneroso, de quaisquer bens imóveis que se situem em zonas de interesse patrimonial definidas pelo plano de ordenamento.

2-O direito de preferência referido no número anterior tem o conteúdo e o alcance previstos no artigo 28. do Decreto-Lei n. 794/76, de 5 de Novembro, e regula-se pelas normas do Decreto n. 862/76, de 22 de Dezembro.

3-Os transmitentes devem efectuar a comunicação a que se refere o artigo 3. do Decreto n. 862/76, podendo o titular do direito exercê-lo a todo o tempo, nos termos previstos no mesmo diploma.

Artigo 18.

Revogações

Nos termos do n. 1 do artigo 32. do Decreto-Lei n. 19/93, de 23 de Janeiro, é revogado o Decreto-Lei n. 41/79, de 6 de Março, com excepção dos artigos 3. e 5.

Artigo 19.

Entrada em vigor

O presente diploma entra em vigor no dia imediato ao da sua publicação.


Presidência do Conselho de Ministros, 11 de Setembro de 1997.

António Manuel de Oliveira Guterres-António Luciano Pacheco de Sousa Franco-João Cardona Gomes Cravinho-Fernando Manuel Van-Zeller Gomes-Elisa Maria da Costa Guimarães Ferreira-Jorge Paulo Sacadura Almeida Coelho.

Promulgado em 24 de Outubro de 1997.

Publique-se.

O Presidente da República, JORGE SAMPAIO.

Referendado em 30 de Outubro de 1997.

O Primeiro-Ministro, António Manuel de Oliveira Guterres.


ANEXO I

Limites da Reserva Natural

Do oceano Atlântico, pelo limite das freguesias de São Jacinto e da Torreira até à estrada nacional n. 327, pela estrada nacional n. 327 até ao Caminho da Areia e por este caminho até ao aceiro I seguindo o seu alinhamento até ao oceano Atlântico. No mar, o limite da Reserva Natural passa pela linha de 6 m de profundidade média na maré baixa.

ANEXO II


Atenção: A leitura deste texto não dispensa a consulta do original.